Privacidade vs Google

Se olharmos com atenção, vamos notar um crescimento exponencial de plataformas online de interacção global. Começou pelos blogs, onde uma pessoa fala da vida dela e os amigos e outros lêem. Depois foram os podcasts (não tão populares) onde uma pessoa falava de um assunto – que também podia ser a vida dela – e os outros ouviam no leitor de mp3. E eventualmente chegou-se ao vlog, onde a pessoa faz um vídeo a falar da sua vida, havendo várias pessoas que fizeram um vídeo por dia por intervalos de tempo entre um mês e um ano.

Agora temos comunidades sociais (MySpace, FaceBook, Hi5, Orkut, LinkedIn, etc) onde a pessoa se inscreve e manda fotos, comenta perfis dos amigos (ou colegas profissionais no caso do linkedin), faz perguntas e outras variações destas acções.

Vejam aqui o meu carro favorito (Lotus Elise) em frente ao stand da Lotus no Porto fotografado no Google Street View

Claro que os blogs e os comentários não eram suficientes, por isso apareceu o Twitter, expoente máximo (por enquanto) da interacção global.. Aqui não podia ser mais simples.. A pessoa apenas diz o que está a fazer ou o que se está a passar várias vezes por dia a todos os amigos.

Mas qual é o interesse de saber o que a pessoa está a fazer, ver ou falar se não soubermos onde? Por isso o Flickr permite que as fotografias tenham a informação GPS do local onde foram tiradas e o Google Latitude permite a uma pessoa saber onde estão os seus amigos em tempo real através de um programa de telemóvel.

Agora já nem os países se podem esconder.. Com o Google Earth, todas as pessoas do mundo ficaram com a tecnologia necessária para ver qualquer ponto do planeta por satélite (ainda não em tempo real). Mas como as imagens de satélite não são suficientes, veio o Google StreetView mostrar a toda a gente como todo o planeta se parece visto como se se estivesse em qualquer rua em qualquer lado..

Também temos o Google Books em que podemos ler qualquer livro – incluindo alguns raros – gratuitamente online.

Digitalização do livro Murphy's Law legível gratuitamente no Google Books. Recomendo a leitura deste livro. Eu próprio possuo uma cópia em português

Podemos notar que a privacidade das pessoas tem diminuído ao longo do tempo.. Mas sabemos que a diminuição da privacidade global, coincide também com um aumento do conhecimento individual ao longo do tempo.

Imaginem que antes de haverem jornais, na idade média, iam os arautos de cavalo aos centros das cidades dar notícias. E isto só quando um evento era merecedor de tal esforço. As notícias chegavam ao povo possivelmente semanas depois de terem acontecido..

Depois vieram os jornais. Um dia depois de algo acontecer, toda a gente sabe. Os jornais já não têm aquele sentido de importância de antes, divulgando qualquer tipo de notícias, relevantes ou não – o que parecendo inútil, dá a cada indivíduo a possibilidade de saber de tudo.

Seguiram-se os telejornais, onde no próprio dia se pode saber o que aconteceu. Estes são de certa forma como os jornais, falando de todo o tipo de assuntos.

E depois veio a internet.. Bem, a internet – para mim – sem dúvida que foi a melhor invenção do século passado. Ela permite de cada vez mais, a qualquer um saber qualquer coisa. Notem como todo o mundo soube da morte do Michael Jackson meras horas depois.

A Google, correspondendo ao seu perfil de gigante da internet, procura de cada vez mais contrair esta bolha a que chamamos privacidade. Se virmos bem, quase todos os serviços deles promovem a obtenção, divulgação e partilha de informação (Docs, Calendar, Reader, Wave, Gmail, Youtube, Sites, Analytics, Code, Maps, Picasa, News, Translate, Blogger, etc).

Fotografia da Torre Eiffel tirada por satélite, visível no Google Maps

A Google recentemente investiu num projecto que planeia descodificar a sequência genética do ADN, o que ia permitir saber que blocos do ADN causam que doenças e que traços físicos e psicológicos. Isto, segundo o plano deles, vai permitir indexar o ADN humano.

Podemos notar por isto que a Google tenciona quebrar qualquer privacidade de todas as pessoas, permitindo que até o padrão genético de qualquer seja pesquisável online.

Eu não considero isto anormal. É lógico que com a evolução da tecnologia e mentalidade das pessoas, de cada vez mais se saiba tudo sobre tudo, incluindo sobre toda a gente. Isto pode parecer arrepiante a alguns, mas considerem que uma só cópia do jornal New York Times tem mais informação num só dia que qualquer pessoa no século XV sabia em toda a sua vida. Não é arrepiante também, se pensarmos mesmo nisso?

Eu acho que tudo isto foi evoluindo assim naturalmente, e a Google, como a empresa recheada de génios que é, percebeu isto e está a tentar antecipar o futuro o máximo que puder. O que é bom para todos. Imaginem só. Todas as invenções foram feitas sequencialmente: primeiro a electricidade e só depois a luz eléctrica. Ora, se Nikola Tesla não tivesse estudado os trabalhos de Michael Faraday, não teria conseguido criar electricidade comercial. E sem os trabalhos de Nikola Tesla, teria sido mais complicado para Thomas Edison criar luz eléctrica, da qual todos beneficiamos.

Resumindo,  para alguém inventar ou criar algo, precisa de saber até onde é que o respectivo campo já foi estudado e avançar. Se toda a informação sobre tudo estiver disponível a todos e cada nova informação existente for logo divulgada globalmente, é muito mais fácil aparecerem coisas novas. Notemos o caso de Elisha Gray e de Alexander Graham Bell, que ambos inventaram o telefone.

Imaginem quão mais rápido será para os investigadores descobrir curas para doenças depois de descodificado o padrão genético. Poderia-se programar vírus muito melhor que actualmente para resolver quaisquer problemas causados por qualquer doença e até mesmo fazer todos os bebés nascerem invulneráveis a quaisquer doenças e problemas genéticos (os vírus além de espectaculares capacidades de sobrevivência, conseguem injectar o seu próprio ADN nas células (infectar) o que lhes permite forçar essas células a comportarem-se de acordo com o que está no padrão genético do vírus, em vez do da própria célula – várias investigações de curas para o cancro envolvem alterar vírus perigosos para atacar apenas células cancerosas fazendo-as practicamente autodestruir-se, o que é simplesmente genial).

Acho que o furor de algumas pessoas contra estas iniciativas da Google é despropositada e desnecessária. Eu acho que eventualmente estas coisas seriam tornadas públicas, mesmo sem a Google intervir – eles simplesmente viram o futuro antes da maior parte das pessoas e estão a tentar chegar lá mais rápido.

Celebridades queixam-se da extrema invasão pessoal dos paparazzi. Ora esses só fazem isso porque há um grupo gigante de pessoas ansiosas por saber o que é que é “normal” para a pessoa que eles admiram. Isto vem do facto de cada um se querer moldar à imagem dos que admira. Se a vida de todos fosse publicada por ele próprio com qualquer das tecnologias descritas antes, não havia necessidade de ser um paparazzo a ir documentá-la.

E, ao ver todas as características de todos os outros, cada pessoa se tornará mais diferente e única, encontrando sempre pessoas com características próximas da sua e combinando as diferentes características numa combinação única que identifica cada um. Como dizia o Oscar Wilde “Be yourself. Everyone else is already taken”.

Vejamos que tudo isto apenas depende da mentalidade das pessoas. Se notarmos a evolução, aceitaremos a diminuição de privacidade normalmente. E eventualmente os nossos descendentes ainda mais, uma vez que será banal para eles e será usual ir ao telemóvel ver onde está o amigo deles e saber que qualquer um pode fazer o mesmo e outras coisas inventadas posteriormente que ainda nem nos passam pela cabeça.

É possível que também os problemas do racismo eventualmente se percam com o total conhecimento do padrão genético de cada um. Será cada vez mais apenas outra característica pessoal como a personalidade e os gostos de cada um.

Imagino também que numa sociedade onde cada um sabe tudo sobre outro, será mais difícil haverem crimes, uma vez que todos tentarão não fazer actos desaprovados pela sociedade.

Esta é só a minha visão e opinião. Comentem com a vossa

Sobre Ricardo Jorge

Citizen of the Internet, blogger and aspiring game developer.
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3 respostas a Privacidade vs Google

  1. redefoca diz:

    Era destes maravilhosos textos que devias escrever no REVIRAVOLTA, mas ok… :p

    Concordo com parte do que disseste, o que me faz discutir mais não é as pessoas aceitarem serem vigiadas por amigos, conhecidos ou fãs, o que me faz discutir (não “discordar, ou “concordar) é elas serem vigiadas sem autorização, apenas pelo facto de estaremos cada vez mais numa sociedade em que a violência ultrapassa os meios. Reparamos que o que é utilizado para o bem e utilização de todos, também é usada para o mal, mas não impeço nem critico a “aparente” evolução, existem meios e cada vez mais para limitar o mesmo, o que me faz interrogar e (mete) “medo” é o facto de os Americanos estarem a discutir a vigilância 100% 24H, ok, o que é isto? Basicamente é vigiar todos os Americanos, já existem por todo o lado da América câmaras nas ruas, devido à violência, e já se fala em implementar chips de identificação e localização de todos os cidadãos, isto para não falar na possibilidade de evolução da tecnologia, como saber o que está a sentir, e caso sinta uns factores emocionais, que cause Raiva, etc a cima de X, activa um alarme que chama a policia para verificar o caso, é como prever o que poderá vir a acontecer, ex: um banco a ser assaltado, N pessoas têm medo e ansiedade num local limitado, outras adrenalina, etc, isto através de um programa avançado faz a probabilidade de um assalto…Ok estou a imaginar coisas, mas é a imaginar coisas que o HOMEM cria, começa tudo assim, de uma ideia. Ouvi falar de uma tecnologia parecida num documentário, tudo é possível para o HOMEM, e o Mundo muitas vezes vem os outros Países a testas as novas tecnologias só depois implementam, isto assusta-me, este tipo de tecnologia e falsa liberdade, nascer e ser logo implementado o chip, ser vigiado em todos os aspectos por toda a vida. Não sei se isto é liberdade, por isso ainda discuto este assunto, o que sinto quando falo disto, é “a que ponto chegaremos para viver em paz? e compensa viver num mundo assim?” podem começar a implementar estes sistemas em pessoas com cadastro mas logo passa para todos, daqui a uns bons anos teremos todos a discutir este assunto, não tenho duvida disso!

  2. Sim, o chip acho exagero.. Não é como se fôssemos produtos fabricados.. Repara que todas as considerações que fiz antes eram para partilha de informação e individualização de cada pessoa e não o seu controlo incondicional – o que a mim parece completamente ditatorial e errado

  3. Legal vosso post, ja tinha pensado em boas partes do que você postou, e, o que fico a imaginar é como isto tudo alterara o comportamento humano, seja no sentido pessoal (onde, talves, se arme com mais “barreiras” para se proteger do externo – ou desarme para se entregar ao externo), ou, ainda, como isto ja interfere nas relações interpessoais, seja em pessoas “normais”, com fetiches ou psicopatologias.

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